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A mais de 30 anos tenho me dedicado
aos rádios valvulados e transistorizados, porém poucas vezes tive a
oportunidade de ter um rádio de galena verdadeiro.
Lembro-me que aos 14 anos montei um rádio com diodo de germânio e
uma bobina de antena conhecida na época como SUPERTENA, vendida nas
casas do ramo da rua Santa Efigênia em SP. Montado dentro de uma caixa
de plástico daquelas que vinham acondicionadas as pilhas RAYOVAC tipo
lapiseira e com um fone de ouvido do rádio Spika de minha avó, fazia
furor entre meus colegas de escola.
Alguns anos atrás, resolvi montar um rádio
utilizando a pedra de galena. Após pesquisa nos meus alfarrábios, reuni
uma dezena de circuitos dos mais variados tipos e complexidade, optando
por um circuito publicado no livro THE BOY MECHANIC de 1945, o qual
reproduzirei em detalhes.
O primeiro passo é conseguir o material
necessário para a montagem do receptor.
Parte desse material pode ser obtido de um rádio da sucata.
Lista de materiais:
1-Uma base de madeira com 25cm X 25cm
2-Tubo de fenolite ou papelão de 3" X 3"1/4
(7,5 cm de diâmetro X 8 cm de comprimento)
3-Tubo de fenolite ou papelão de 2"1/4 X 1"1/2
(5,5cm X 3cm)
4-Cristal de galena (ver detalhes no descritivo)
5-Capacitor de .002 Microfarads ( 2 nano )
6-Fone de ouvido de alta impedância
( mínimo de 1 kohms )
7-Eixo de sintonia
8-Bornes para conexões
9-Soquetes de válvula
10-Solda
11-Fio de cobre de 24 a 32 AWG
12-Parafusos diversos
De posse do material, iniciamos a
construção das bobinas, onde deveremos seguir a risca todos os detalhes
construtivos.
Os tubos podem ser de fenolite, ( difícil de se encontrar
atualmente ), de papelão, de plástico ou outro material isolante. O
importante é que tenham as dimensões bem aproximadas indicado na lista
de materiais.
Como sugestão, pode-se utilizar cartolina para construir os
tubos. O diâmetro do fio para confecção das bobinas não é crítico,
podendo variar de 24 AWG até 32 AWG, "uma boa idéia é aproveitar o fio
de cobre do secundário de um transformador de saída de áudio queimado".
Este rádio de galena emprega sintonia
tipo "varycoupling", (variação do acoplamento das duas bobinas) no lugar
do capacitor variável de sintonia. O varycoupling nada mais é que duas
bobinas em série, sendo que a bobina menor gira de forma axial dentro da
bobina maior.

Para melhor entendimento, analise o circuito do rádio acima.
As duas bobinas indicadas por 13 turns
(13 voltas), fazem parte do enrolamento fixo (stator section), ou seja,
são enroladas na fôrma de maior diâmetro.
Na verdade ela é somente uma bobina com 26 voltas, enrolada com um
espaçamento no centro, para dar lugar à passagem do eixo que irá
movimentar a bobina do rotor.
A bobina indicada por 30 turn, faz parte do rotor (rotor sect.),
que também possui um espaçamento no meio, ou seja, será enrolada em duas
etapas de 15 voltas.
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Com o desenho ao lado, podemos facilmente
verificar como ficará a construção das bobinas externa e interna que
compõem o varycoupling
Note que a conexão da bobina interna (rotor) com a bobina externa é
feito com fio flexível (flex leads). Eu usei o fio de cone de
auto-falante, vendido em casas de conserto destes componentes. Outra
particularidade na construção das bobinas, é o sentido de
enrolamento das mesmas. Notar pelo desenho que o sentido de
enrolamento do rotor é inverso ao do estator. O estator é enrolado
no sentido horário e o rotor no sentido antiorário.
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Agora vamos construir o alojamento da
pedra de galena.
Como podemos notar na figura ao lado, para acondicionar o cristal
de galena, foi utilizado um soquete de uma válvula queimada de 4 pinos,
tipo 80 (retificadora), porém um soquete de válvula de 8 pinos ou outra
qualquer que tenha sua base de baquelite, servirá para nosso propósito.
O cristal de galena, nada mais é que um diodo semicondutor, em
estado natural, e para sua utilização, teremos que ter dois contatos com
o mesmo.
O primeiro contato será feito,
envolvendo o cristal de galena com estanho (crystal holder). Para isso,
providencie uma caixinha do tamanho aproximado de um dedal (se você não
sabe o que é dedal, pergunte para sua avó ou sua mãe), que caiba dentro
do soquete da válvula (esta caixinha servirá somente como molde).
Coloque a pedra de galena dentro desta caixinha e com o ferro de solda,
vá derretendo o estanho até que o mesmo atinja metade do cristal.
Veja a ilustração acima.
Após o estanho esfriar, desenforme da caixinha e com um leve toque
do ferro de solda, solde um pedaço de fio no bloco de estanho que está
fixando o cristal.
Este fio deverá ser soldado em um dos pinos do soquete da válvula.
Providencie a soldagem de um outro pedaço de fio, em outro pino do
soquete. Este segundo fio, será o outro contato do cristal, indicado no
desenho como "positive contact on cristal".
Faça um furo na lateral do soquete da válvula e fixe com parafuso o
segundo fio junto com um pedaço de arame de aço ou alfinete de fralda,
para que este contato tenha efeito de mola.
Após concluída todas as conexões, fixe o cristal com sua base de
estanho, no soquete da válvula, utilizando vela derretida ou parafina.
Se você conseguir chegar até este ponto, terá construído um
dispositivo bem próximo do que era conhecido nos velhos tempos como
"Bigode de Gato",(Catwhisker).
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Bem, aí está uma visão de como ficará nosso
rádio de galena.
Neste ponto, ficou faltando o acoplamento do rotor com o estator.
Para isso, usei um eixo de sintonia daqueles que eram usados em
velhos rádios tipo rabo quente, para girar a cordinha do dial.
Este eixo é composto de uma bucha com rosca nas duas extremidades,
que será fixado com duas porcas no estator, tendo no interior desta
bucha, o referido eixo que terá uma de suas extremidades colada ou
parafusada ao rotor. |
Este ponto da montagem deverá ser feito
com muita cautela para que o alinhamento do rotor em relação ao estator
seja o mais centralizado possível, evitando que o tubo da bobina interna
raspe no tubo da bobina externa.
Através das fotos, tenho certeza que não haverá maiores
dificuldades na montagem deste rádio de galena.
Finalizando, a pedra de galena é um dos pontos críticos nesta
montagem. Eu consegui um pedaço com um velho amigo aqui em minha cidade,
mas tenho certeza que se você entrar em contato com algum radioamador ou
radiotécnico mais antigo eles irão ajudar.
Lembro-me de ter ouvido falar que estas pedras eram muito comuns em
beira de estrada de ferro, misturada nas britas (não sei se esta
informação é correta).
Em todo caso, se você não conseguir a pedra de galena, poderá
substituí-la por um diodo de germânio destes usados em rádio
transistorizado, na etapa detetora, cujo efeito será o mesmo, porém não
tão original.
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Para funcionar nosso rádio de galena, vamos
precisar de uma boa antena e um bom terra, juntamente com um fone de
ouvido de alta impedância e uma dose extra de paciência para
procurar as estações. Se chegou até aqui na montagem, voce é
persistente o bastante para fazê-lo funcionar.
Qualquer dúvida, não exite em me contactar.
João A.B.Mello.
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Lembrete:
1-Devido a este tipo de rádio não ser
alimentado com nenhum tipo de fonte ou bateria, o nível de áudio obtido
nos fones é muito baixo, e de difícil percepção, sendo necessário estar
em um ambiente bem silencioso.
2-Tente captar inicialmente, as estações mais fortes de sua cidade,
e se estiver usando o "bigode de gato", terá que achar com o alfinete, o
ponto exato do semicondutor, existente na pedra de galena , (vá
cutucando levemente a pedra) perceptivel através de um leve chiado. Com
o auxílio do eixo de sintonia, varie o acoplamento das duas bobinas, até
conseguir ouvir a estação local.
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